Relembrando Allan Kardec

PROPAGAÇÃO DO ESPIRITISMO

Allan Kardec

Podemos distinguir, na propagação do Espiritismo, quatro fases ou periodos distintos:

1. O da curiosidade, no qual os Espíritos batedores hão desempenhado o papel principal para chamar a atenção e preparar os caminhos.

2. O da observação, no qual entramos, e que podemos chamar também de período filosófico. O Espiritismo é aprofundado e se depura, tendendo à unidade de doutrina e constituindo-se em Ciência.
Virão em seguida:

3. O período de admissão, no qual o Espiritismo ocupará uma posição oficial entre as crenças oficialmente reconhecidas.

4. O período da influência sobre a ordem social. A Humanidade, então sob a influência dessas idéias, entrará num novo caminho moral.
Desde hoje essa influência é individual; mais tarde agirá sobre as massas, para a felicidade geral.

Assim, de um lado, eis uma crença que, por si mesma espalha-se pelo mundo inteiro, a pouco e pouco e sem os meios usuais de propaganda forçada; por outro lado, essa mesma crença finca raízes não nos estratos inferiores da sociedade, mas na sua parte mais esclarecida. Não haveria, nesse duplo fato, algo de muito

característico e que devia fazer refletir todos quantos ainda consideram o Espiritismo um sonho vazio? Ao contrário de muitas outras idéias que vêm de baixo, informes ou desnaturadas, não penetrando senão com dificuldade nas camadas superiores, onde se depuram, o Espiritismo parte de cima e só chegará às massas desembaraçado das idéias falsas, inseparáveis das coisas novas.

É preciso convir, entretanto, que, entre muitos adeptos, existe somente uma crença latente. O temor do ridículo ente uns, e noutros o receio de melindrar certas suscetibilidades os impedem de proclamarem alto e bom som as suas opiniões; isso é sem dúvida pueril; entretanto, nós os compreendemos perfeitamente. Não sepode pedir a certos homens aquilo que a Natureza não lhes deu: a coragem de desafiar o “que dirão disso?”

Porém, quando o Espiritismo estiver em todas as bocas — e esse tempo não está longe — tal coragem aos mais tímidos. Sob esse aspecto uma mudança notável já vem se operando desde algum tempo; fala-se dele mais abertamente; já se arriscam, e isso faz abrir os olhos dos próprios antagonistas, que se interrogam se é prudente, no interesse de sua própria reputação, combater uma crença que, por bem ou por mal, infiltra-se por toda parte e encontra apoio no ápice da sociedade. Assim, o epíteto de loucos, tão largamente prodigalizado aos adeptos, começa a tornar- se ridículo; é um lugar comum que se torna trivial, pois em breve os loucos serão mais numerosos que as pessoas sensatas, havendo mais de um crítico que já se colocou do seu lado. Finalmente, é o cumprimento do que anunciaram os Espíritos, ao dizerem: os maiores adversários do Espiritismo tornar-se-ão seus mais ardorosos partidários e propagandistas.

FONTE: Revista Espírita. setembro de 1858. Tradução de Evandro Noleto Bezerra.Rio de Janeiro: FEB, 2004. p.369-371

 


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