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Afetividade Conflitiva

Entre as condutas perturbadoras, convém seja destacada a afetividade conflitiva como de relevância, apresentada pela criatura humana que, desajustada emocionalmente, expressa todos os seus tipos de realizações mediante estados de desequilíbrio, gerando novas ansiedades, insatisfações e desajustes.

A carência afetiva e a insegurança normalmente produzem comportamentos antinaturais, instáveis, que chamam a atenção de forma desagradável.

Confundindo afetividade com paixão, o paciente transfere o seu potencial de irrealizações para o ser elegido e propõe-se a dominar-lhe a existência, utilizando-se de ardis variados, através dos quais, sentindo-se sem valor para receber amor, tenta conquistar piedade, simpatia, fazer-se necessário, isolando o afeto de outros relacionamentos e atividades, de forma a estar sempre presente e tornar-se um misto de servo e amante ao alcance da mão.

As suas manifestações de afetividade são egoísticas, insaciáveis, derrapando no ciúme doentio, que assevera ser demonstração de amor, destruindo a espontaneidade das atitudes na convivência. Mesmo que amado, desconfia dessa possibilidade, afirmando ser do outro, um sentimento de compaixão e não uma amor cheio de arrebatamento e de profundidade.

Sempre almeja dedicação exclusiva até o asfixiar a pessoa escolhida, que perde a personalidade sob o julgo implacável desse algoz afetivo.

Não obstante consiga conquistar alguém, não é capaz de mantê-lo, porque sempre aspira a mais, a ponto de tornar insuportável o convívio, fugindo para a autodestruição psicológica. Suas maneiras são artificiais, sua preocupação única é cercar o ser querido com demonstrações cansativas do que diz ser o amor que devota, não compreendendo que o outro tem inquietações próprias e anseios diferentes dos seus, e nem sempre está disposto a suportar a asfixia que lhe é imposta.

A criatura nasceu para ser livre, e, por isso mesmo, o amor é sentimento que liberta, proporcionando paz e alegria. Quando manifestado por exigências descabidas, deperece e morre. O amor tem infinita capacidade de compreender e de tolerar, de ser franco e honesto, nunca diminuindo, quando em dificuldades, por dispor de recursos nobres para eliminar os impedimentos e incompreensões.

Um relacionamento saudável é feito de diálogos e coerência de comportamentos, de lealdade na forma de ser e autenticidade na maneira de viver, de tal forma que a presença do outro não inibe, antes agrada, preenchendo os espaços sem as imposições habituais de tomá-los. A pessoa sequer dá-se conta de como o outro ser é-lhe importante, até o momento em que lhe sente a ausência, experimentando a profundidade afetiva e o significado daquele a quem ama.

Quando a afetividade se apresenta através de uma pessoa insegura, torna-se tormentosa, cansativa, e aquele que parece amado sente-se bem quando longe do seu controlador emocional. Por sua vez, o atormentado olha todos quanto estimam o seu elegido como adversários ou competidores, invejosos ou dificultadores de sua plenificação e felicidade.
As raízes dessa conduta estão na infância solitária, maltratada, que foi vivida conflituosamente e transferiu para o futuro as aspirações de dominação para ter, ao invés da afirmação pessoal para ser.

Na fase infantil, sentindo-se desamada, a criança chamava a atenção pelo choro, pela insubordinação, pelo fingimento, que transferiu para a idade adulta dissimulando o que pensa e o que faz, em razão dos recursos mentais de que dispõe.

A libido funciona, nesses casos, sob estímulos equivocados, quando o indivíduo passa de um estado de posse ao de perda, agitando-se e desejando o outro, submetendo-se a situações humilhantes, desagradáveis, sem importar-se, desde que atenda o ego em angustiosa desesperação.

Quase nunca relaxa quem assim se comporta, vivendo de suspeitas e procurando provas do que pensa, por isso exigindo sempre mais abnegação, paciência e demonstrações de amor que espera receber, sem satisfazer-se.

Essa afetividade patológica requer terapia cuidadosa, a fim de o paciente adquirir a tranqüilidade perdida e a auto-segurança, necessária para poder amar sem conflitos.

Quanto mais a pessoa tentar ignorar que esse é um comportamento irregular, tanto mais difícil se lhe torna a convivência com as demais criaturas, particularmente quando manifesta a tendência para ser vítima, transferindo a culpa do que lhe ocorre para as demais pessoas.

A coragem para assumir responsabilidades e reconhecer a urgência, em favor de uma terapia conveniente para o seu conflito, já é um passo significativo para o seu processo de cura.

Joanna de Angelis  

FRANCO, Divaldo Pereira. Vida: Desafios e Soluções. Pelo Espírito Joanna de Angelis. Salvador, BA: LEAL, 1997, p.44

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