Mensagens de Estudo
Na formação de uma família
“... sois da família de Deus.”
Efésios, 2:19
Muito própria, para os tempos que correm, a análise mais ampla possível da formação familiar.
Sem contestação, a família constitui exemplo de pequeno grupo experimental, engendrado pelos Prepostos do Criador, de modo a permitir aos Espíritos a vivência das experiências variadas capazes de os cumular de aprendizados importantes para a vida perene da alma.
Nada obstante as considerações sociológicas e antropológicas acerca da estruturação e desenvolvimento da instituição familiar, aqui, desejamos refletir sobre as questões de ordem sócio-espiritual da sua formação, com o enfoque na necessidade de maior maturidade dos parceiros dessa união doméstica.
Nos propósitos da Divindade, é fundamental que, enquanto nos ciclos de vida mais modestos, durante as reencarnações em mundos ainda rudimentares, as almas desenvolvam elementos tais que lhes permitam viver no porvir planetário a condição da grande e conscientemente integrada família cósmica.
De que forma esses indivíduos trazidos aos orbes materiais conquistariam essa ‘sociabilidade transcedental’, para o grande futuro da humanidade, senão por meio de microexperiências em conjuntos familiares?
Ao longo das idas e vindas das almas ao cadinho planetário, onde são buriladas, pouco a pouco, entre equívocos e acertos, afastando-se e acercando-se das divinas leis, vão-se desenvolvendo incontáveis habilidades, maneiras, sensibilidade, condicionamento que são de molde a permitir que esses filhos de Deus logrem, mais à frente, conviver em um circuito bem mais amplo, junto a indivíduos de todos os tipos de pendores, de gostos, virtuosos e viciosos, enquanto avançam sempre. Imprimirão, assim, na inconsciência, recursos de tal magnitude que lhes permitam uma convivência amadurecida, onde haverá lugar para a aceitação de cada um como cada um se apresenta, não para manter o status quo de equívocos e atrasos, mas para que se possam achar modos próprios, compatíveis, bem estruturados de libertação dos atavismos, do atraso, da inconseqüência, da violência de qualquer jaez.
Dentre os grandes desafios que se apresentam a cada pessoa, quando se dispõe a conquistar um parceiro para a vida em comum, está a velha questão quanto aos fundamentos dessa busca.
De parte das leis divinas, esses encontros devem visar sempre a busca do crescimento do par, crescimento que se vai forjando nas múltiplas dimensões do indivíduo: crescimento moral, sentimental, emocional, intelectual, e outros, o que fomentará, pouco a pouco, o progresso do Espírito reencarnado, por meio do qual se vê no conjunto das almas alcandoradas, que conseguem cooperar, de modo mais alto e mais amplo, com a vontade do Criador.
Importante seria que cada qual pudesse refletir a respeito de sua própria condição individual, desde a sua forma de encarar a vida, de regê-la, até o seu modo de relacionar-se com terceiros de fora do grupo consangüíneo. Isto sem deixar de considerar que até o momento de sua decisão de coligar-se a alguém, passionalmente, vivia, em tese, no bojo de uma família onde logrou estruturar sua personalidade, seja ela qual for, e que, agora, se tornará indispensável ajustar tudo isso a outro ser que, igualmente, tem a sua história de vida familiar.
Deseja-se que a união desses parceiros não se converta num continuado empenho de domar, de submeter o outro, ignorando-se toda uma realidade formativa, que não se consegue abater senão ao preço de muita dor, de muita frustração, de muita desventura que, facilmente, se converte em processo de mágoas, de ódios de difícil solução.
Essencial seria que os indivíduos que se lançam à formação da família assumissem compromisso com o conhecimento de si mesmos. Bom se conseguisse compreender cada um a si mesmo; se se responsabilizasse por suas próprias escolhas, sensações e emoções, sabendo que as suas realizações são suas e que, por isso, não deverão atribuir aos outros qualquer culpa por insucessos que lhe possam advir.
Fundamental seria que após a crise de identidade que costuma ser característica da fase adolescente, o ser adulto conseguisse maior independência, pudesse ser mais autônomo, nada obstante o apego aos afetos do grupo familiar.
Nesse esforço pela independência e autonomia, a pessoa passaria a investigar-se e ter mais atenção para com a sua bagagem íntima individual; observar e aquilatar a sua escala de valores – que define fortemente o rumo que as criaturas dão a suas existências, bem como as escolhas que fazem para seus caminhos – ; o que almeja para si mesma, tanto em termos profissionais, sexuais e afetivos. Além do mais, cada qual se indagaria a respeito do que é capaz de fazer na vida perante o rol dos conhecimentos e sentimentos que detém.
Encontraríamos embasamento firme para uma estrutura familiar às leis de Deus, caso as pessoas fossem capazes de fazer essa verificação a respeito de si mesmas.
Após o ensaio da maturidade que as criaturas fizessem, objetivando uma vivência mais harmônica do par de esposos, seria bem mais fácil entender que no casamento não há necessidade de que nenhum dos dois se perca, mantendo-se cada um com os valores nobres, úteis e indispensáveis à riqueza do caráter, embora a força, o apoio que a relação dará a ambos para diminuir ou desfazer as características infelizes, ignóbeis e desinteressantes que cada parceiro leva consigo, produzindo amarguras inesgotáveis.
O amadurecimento gradual dos parceiros conjugais faria com que cada um não se pusesse a tomar sobre si todas as insatisfações ou infelicidades do outro, exatamente porque cada um tratou de avaliar-se, antes de compromissar-se de modo mais profundo. Então, cada membro do par se tornaria lúcido a ponto de cooperar, de ajudar o outro em suas dificuldades, embora a consciência sem culpa quanto a ter tomado parte nas motivações de tais problemas.
Quando se estabelecem os conflitos maritais, encharcados de culpas e cobranças de ambos os lados, os resultados desalentadores desses distúrbios costumam alimentar processos mais ou menos graves de depressão, tanto em homens quanto em mulheres.
A família, que atualmente se engendra nas sociedades do mundo, reflete os níveis em que se encontram os seus membros na pauta evolutiva.
É na troca vibracional, estabelecida no bojo doméstico, que se fortificam sentimentos: os anseios de progresso, as diversificadas pulsações do amor, os interesses múltiplos em torno da grei quanto da própria existência humana. Nas estradas de elaboração evolutiva dos Espíritos, vêem-se aqueles que se esmeram em dar passos mais largos, enquanto outros dão-nos mais curtos, mais simples.
Nos planos divinos, os Servidores do Bem, atendendo às propostas do Pai Criador, sabem que é a partir de experiências em pequenos grupos que se aprende a conviver junto a grupos significativamente maiores, infinitamente mais complexos, o que faculta amplo enriquecimento nos rumos do amadurecimento devido.
Quem não consegue se ajustar bem, ainda que pouco a pouco, com grupamentos de três, quatro, cinco ou dez pessoas, muitas dificuldades terá para conviver com centenas ou com milhares de indivíduos, com certeza diferentes entre si. Valorizar, portanto, o grupo familiar na sua dimensão escolar, significar gerar concepções de família bem mais assentadas, bem mais nobres, o que permite se possa valorizá-la como fundamento da macro-sociedade planetária.
Somente quem se deteve a pensar, a refletir acerca do valor e da importância espiritual da família, é capaz de retirar da sua convivência o melhor aprendizado, os melhores exercícios para uma vida mais alta e mais bela, sob a luz de Deus.
Camilo
TEIXEIRA, Raul. Nos passos da vida terrestre. Pelo Espírito Camilo. Niterói, RJ: Frater. 2005, cap. 7.
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