Mensagens de Estudo

Mensagem dos amigos que nos precederam *
(no dia de Finados)

Meus bons amigos, após as preces que acabais de ouvir, e às quais associastes com todas as veras, eu teria preferido ver cada um de vós se retirar no piedoso silêncio que a prece vos deixa no coração. Elevastes vossas almas a Deus por todos os que partiram da Terra; estabelecestes suaves lembranças com o passado e, neste presente, não vos sentis mais fortes? Há pouco não sentistes, enquanto vossas almas subiam ao céu num ímpeto comum, o hálito quente de outras almas, misturando suas preces às vossas? Não vos impregnastes delas? Por que não vos recolher nesse perfume silencioso de além-túmulo, em vez de pedir as nossas vozes? Viver com esses doces pensamentos decorrentes dos eflúvios sagrados da prece não é felicidade bastante?

Mas compreendo que não vos basta essa linguagem muda. Os zéfiros tépidos não são suficientes para o coração amoroso que pede aos ecos uma voz que responde à sua voz. Eu vos perdôo esse desejo, aliás muito justo. Por que não podia cada um de vós gozar um segundo de benefício que lhe concede sua nova fé, de se comunicar com os que lhe são caros através dos médiuns?

Mas, quão numerosa é vossa assembléia, para a pequena quantidade de mãos que podem escrever! Dentre os vossos amigos, quais os felizardos que podem dizer que escutarão suas vozes? Vejo aqui um número de Espíritos muito mais considerável do que o de encarnados; eles se comprimem em volta de cada um dos nossos intermediários: Georges, Sanson, Costeau, Jobard, Dauban, Paul, Émile, e cem outros, cujos nomes não posso dizer, aqui se encontram, e gostariam de falar convosco. Reprimo os seus impulsos e digo a todos que serei o intermediário entre eles e vós; eles o querem e vós, caros amigos, não o desejais também? Tratarei de ser pai para uns e mãe para outros; ainda para outros um filho, uma filha, um esposo, uma esposa, e para todos um amigo, um irmão que vos ama e que gostaria que vossos corações, reunidos num só, formassem um só pensamento, uma só alma, respondendo a essa comunhão de espírito, concentrada em meu pensamento e em minha alma.

Ah! Vossos caros mortos não esperaram esse dia para vir a cada um de vós; a todo instante não sentis se espremendo ao vosso lado, a vos dar, por essa voz que chamais de consciência, os segredos castos e divinos do dever? Não os sentis se aproximarem mais de vós nas vossas horas de tristeza e de desfalecimento? Eles vos dizem: Coragem! E, sobretudo a vós, espíritas, eles vos mostram o céu e as inumeráveis estrelas que rolam no firmamento, em sinal de aliança entre o Senhor e vós.

Não, meus caros amigos, eles não vos deixam pelo pensamento. A ti, mãe, tua filha vem dizer: Eu parti primeiro, como se desprende do tronco vigoroso o galho que a tempestade quebra, mas vivo ainda de tua seiva e de teu amor na imensidade; e neste rosário de pérolas que minha alma carrega, não há algumas esmeraldas que me vieram de ti?

Pai, ouço teu filho dizer-te: Parti para voltar e te ajudar, em tua prece, a amar melhor a Deus. Parti para que tua fronte não se inclinasse diante do grande dispensador de todas as coisas. Ele quis lembrar-te a ti, fazendo-te ouvir as modulações de além-túmulo da voz de teu filho.

Irmão, ouço teu irmão contar-te os folguedos de outrora, as lutas, as alegrias, os sofrimentos. Estou no além, diz ele, mas não estou morto. Eu te preparei o caminho: nele há mais glória que na Terra. Lança fora teu manto de púrpura e veste o manto de burel para fazer a viagem. O Senhor ama mais a pobreza do que a riqueza.

Ouço doces suspiros responderem aos vossos sussurros: os do amante respondendo à amante; os do esposo à esposa. Bela harmonia!

Rejubilai-vos pois! Quantas lágrimas felizes! Quantos impulsos tocantes! Esposa, senti vossas mãos apertadas pelas mãos invisíveis de vossos esposos; a esta hora eles vêm renovar o juramento de vos amarem sempre; vêm dizer-vos o que eu mesmo disse: que a morte não rompe os laços do coração e que as uniões se continuam no além-túmulo.

Como eu gostaria de nomear cada um desses mortos queridos; mas não posso! Escutai vós mesmos as suas vozes. Cada um de vós as reconhecerá no concerto sagrado que sobe ao Céu. Juntas, cantam um hino de ação de graças ao Senhor.

Santo Agostinho   

* título nosso.

Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: ano VII - dezembro de 1864. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3.ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. p. 492-494.

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