Crônica na rede
Um Abraço no Cadinho
Há pouco tempo atrás, folheando um jornal carioca, deparei com um
anúncio na seção de avisos fúnebres, trazia uma
mensagem de alegria, de fé, de vida e confiança, tão diferente
das lacrimejantes despedidas que normalmente se vê naquela seção.
Seu autor a escreveu na época em que descobriu ser portador de câncer,
e ao invés de se lamentar, resolveu celebrar a vida, escrever sobre os bons
momentos que poderia desfrutar nos intervalos do tratamento desconfortável
que estava fazendo.
Um detalhe importante, não se tratava de um senhor avançado em idade
analisando sua experiência de vida e aceitando um destino irreversível,
não, era o texto de um jovem de 22 anos que entendeu a transitoriedade da
vida, mas percebeu que ela deveria ser mais que a impermanência sem sentido.
Cadinho mandou sua mensagem para os amigos, ele estava em tratamento nos Estados Unidos
e eles no Brasil, era o ano de 2003 e havia nele o heroísmo dos que se conhecem
e que não sabem desistir, não sei qual era a crença religiosa
dele, mas ele foi o exemplo vivo do que ficou registrado em João 8,32:
"... e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará."
O moço sabia de sua situação e abraçou a mais eloquente
das verdades, aquela que mostra a coragem de se expor, se definir e dar o exemplo,
com isso, libertou-se das amarras do medo e da incerteza, não deixou que as
pessoas sentissem pena dele e sim, admiração por estar olhando de
frente para um problema tão difícil, tão doloroso.
Hoje ele não está mais neste mundo material, certamente está
consciente de que a vida continua, sempre, e deve estar feliz por ter feito a
melhor escolha, a da superação.
O Espiritismo nos ensina que nada é ocasional, tudo obedece a uma
programação prévia, consentida, produto de um
livre-arbítrio que traduz a responsabilidade individual pelas escolhas
feitas. Que bela escolha Cadinho fez ao preparar a sua programação,
dar um sentido à vida e mostrar que todos podem dinamizá-la,
independente de crenças, um herói singelo, anônimo, mas que
atingiu o objetivo de enviar uma mensagem transcendental para aqueles que o
admiravam.
Mesmo agora, suas palavras marcaram através do anúncio que
provavelmente sua família estampou no jornal, fazendo com que ele se
faça presente mesmo depois de sua passagem para o plano espiritual, dizem
que palavras o vento leva, mas aquelas carregadas de amor não são
assim...
A mensagem que li, foi escrita em setembro de 2003, por um moço de 22
anos que se recusou a perder as esperanças e se surpreendia a cada dia,
com sua vontade de viver.
Passaram-se seis anos e em setembro de 2009 ele se foi, mas apenas os laços
materiais foram rompidos, a lógica da vida só tem sentido se
nós não a imaginarmos rompida com a morte física, é
claro que tanto esforço do moço não foi em vão,
estará vivo no coração dos que o amam e qualquer um deles,
nos momentos de dor, de fraqueza, de insegurança, vai se lembrar do amigo
que não cedeu. é assim que o homem permanece vivo na eternidade.
Não conheci o Cadinho, nunca soube dele, vim a conhecê-lo e
admirá-lo, pelo anúncio que li, através dele pareceu-me que
conheci sua vida inteira, vinte e oito anos muito bem vividos.
Não conheci o Cadinho, mas sei, por tudo em que acredito, que ele deu um
salto em sua evolução espiritual, imagino quantas pessoas leram o
anúncio a que me refiro e o quanto ele fez bem para desiludidos, desanimados
e descrentes...
Não conheci o Cadinho, mas mando meu abraço fraterno para ele,
esperando que na sua nova dimensão, possa continuar a fortalecer a todos os
que dele precisarem, agora melhor que nunca, já livre das amarras da
quimioterapia e das dores do câncer libertador.
Antes que me esqueça, Cadinho era o apelido do Ricardo Fainziliber.
Assaruhy Franco de Moraes
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