Crônica na rede

A Religião Espírita

O Espiritismo deve ser estudado, entendido e praticado nos seus três aspectos - científico, filosófico e moral ou religioso. E essas três condições, a meu ver, são inseparáveis, indissociáveis. Quando se privilegia um desses aspectos, arrisca-se a um entendimento parcial da doutrina, que pode gerar conclusões equivocadas e práticas sem qualidade - sem resultados confiáveis.

Por exemplo, quem é responsável por reunião mediúnica deve usar dos critérios seguros propostos por Kardec em O Livro dos Médiuns, para condução do fenômeno. Quem assim fizer estará se utilizando da metodologia científica própria, que certamente produzirá fenômeno autêntico e com qualidade.

Do fenômeno, bem conduzido, resultarão conseqüências filosóficas e morais. A manifestação dos espíritos possibilitará reflexões nesses dois sentidos. O aspecto científico conduziu o fenômeno. O filosófico e o moral lhe foram conseqüentes.

Se privilegiamos o aspecto religioso, em detrimento dos demais, poderemos cair num pieguismo característico da mística sem respaldo da razão. Aliás, vimos assistindo essa postura desencadear comportamentos devocionais, próprios dos cultos religiosos. O resultado é o aparecimento, em nosso meio, de novos modelos do farisaísmo tão combatido por Jesus.

Na Revista Espírita de dezembro de 1868, Kardec esclarece que, no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião; porém na forma não, pois sua prática difere substancialmente do que se convencionou chamar de religião. Quanto à afirmação anterior que fizera a propósito de não ser o Espiritismo uma religião, o codificador esclarece: "Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não o veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública".

Uma análise desapaixonada nos mostra que a inexistência de sacerdócio paramentado não inibiu nem impediu o surgimento de posturas sacerdotais, autoritárias, em nossa comunidade. A meu ver, o formato religioso que se vem desenvolvendo, entre nós, se assemelha muito àquele com que Kardec não queria ver o Espiritismo comprometido - com cortejo hierárquico e seus privilégios.

Essas distorções podem ser corrigidas quando passamos a entender que são inseparáveis os três aspectos - o científico, o filosófico e o moral ou religioso. É certo que a Doutrina Espírita procedeu do fenômeno. E uma maior atenção no estabelecimento do Espiritismo como doutrina, nos indicará que, se a filosofia espírita se apresenta coerente e se a religião espírita se mostra conseqüente, é porque resultaram do fenômeno conduzido e observado por metodologia científica apropriada.

Com relação à prece, que é um dos instrumentos da religião, o codificador, na Revista Espírita de janeiro de 1866, esclarece que, "se o Espiritismo propõe a sua utilidade, não é por espírito de sistema, mas porque a observação permitiu constatar a sua eficácia e o modo de ação" E o ato de orar não dever ser confundido com um ato litúrgico. É um ato de adoração, conforme disposto na questão 659 de O Livro dos Espíritos, através do qual devemos buscar nos elevar a Deus. Não pode ser confundida com a atitude de se repetir um texto decorado várias vezes, que se traduz numa forma hipnótica. Ao fazermos uma prece, devemos refletir sobre o que estamos propondo, quer por pensamentos quer por palavras, para que, dessa forma, possamos qualificar nossa maneira de orar e, assim, atingirmos o objetivo - a sintonia com os planos superiores do Espírito.

Ainda na Revista Espírita de dezembro de 1868, Kardec identifica a religião como um laço e afirma: "O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, um laço essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito".

É preciso estarmos alertas para não reproduzirmos em nossa coletividade os procedimentos da tradição religiosa, pois o Espiritismo não nos conforma a uma fé cega. A de que ele fala é a Fé raciocinada.

Jayme Lobato

Feliz Ano Novo !!!

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