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EXCESSO DE MAL - NECESSIDADE DO BEM
Doris Madeira Gandres
(Rio de Janeiro)
A cada dia, a cada noticiário, a cada edição jornalística de qualquer tipo, nos deparamos com fatos cada vez mais dolorosos - e não me refiro a cataclismos como a onda tsunami ou o terremoto, recentemente ocorridos. Falo de situações em que a banalização da violência física e mental, o total desrespeito pela condição humana, o incentivo cada vez maís acintoso à ganância, ao consumo desmedido, ao prazer desenfreado e a qualquer custo, parecem ser a tônica do dia-a-dia da humanidade. Somos, desse modo, levados a concordar com Allan Kardec quando, com sua visão esclarecida e sua lucidez, afirmava: “ Os males da Humanidade provêm da imperfeição dos homens; pelos seus vícios é que eles se prejudicam uns aos outros.”
Enquanto forem viciosos serão infelizes, porque a luta dos interesses gerará constantes misérias. (1) E é isso mesmo que se constata, hoje com mais facilidade do que antes, talvez não só porque compreendamos um pouquinho melhor as leis naturais, mas também porque, com o avanço acelerado da tecnologia de difusão da informação, tudo o que se passa no mundo é quase como se fosse aqui e agora. As misérias materiais e morais que nós - elementos que compomos os diferentes segmentos sociais em diferentes épocas e condições - conseguimos gerar e alastrar pelos quatro cantos do nosso lindo globo terrestre são, muitas vezes, de natureza a constranger os mais empedernidos: aproximadamente a cada sete segundos, em algum lugar, uma criatura, criança ou adulto, morre de fome ou de doença dela decorrente (2); no entanto nós, humanidade, produzimos o suficiente para alimentar mais de 12 bilhões de seres humanos, sendo que somos apenas pouco mais do que 6 bilhões... (3) Os excessos a que nos entregamos entorpeceram-nos de tal forma a razão e o discernimento - faculdades, aliás, de que já somos portadores há milênios - que passamos a considerar como legítimos comportamentos e atitudes que infringem flagrantemente a lei básica de justiça, aquela que nos indica que devemos fazer ao outro o que desejamos que ele nos faça . O interesse pessoal tornou-se a viga mestra da nossa existência - tudo o que nos possa garantir qualquer tipo de vantagem tornou-se válido.
Entretanto, o tempo passa, mas nós não passamos: existência após existência vamos acumulando erros e experiências, colhendo o que semeamos precedentemente, ainda que a colheita seja cada vez mais penosa. E só assim, no estágio evolutivo em que ainda nos encontramos, vamos despertando e aprendendo lenta e dificilmente a semear um pouco melhor; estamos ainda naquela fase em que “ é necessário o excesso de mal para que se compreenda a necessidade do bem. ” (4). Contudo, hoje já percebemos o excesso de mal e de misérias que os nossos vícios de toda sorte espalharam pelo mundo; já entendemos que somente uma mudança de postura diante do semelhante, uma avaliação rigorosa dos valores que até agora cultuamos e, acima de tudo, o exercício de uma vontade ferrenha no sentido de se estabelecer uma nova situação em que a ética e a fraternidade sejam a base das relações humanas, somente assim seremos capazes de abolir gradativamente os males da humanidade. Kardec assevera ainda, com muita propriedade, que “ o progresso consiste, sobretudo, no melhoramento moral, na depuração do Espírito, na extirpação dos maus germens que em nós existem. Esse o verdadeiro progresso, o único que pode garantir a felicidade ao gênero humano, por ser o oposto mesmo do mal. ” (5). E o nosso progresso moral nós o construímos dia-a-dia, hora a hora, minuto a minuto, mediante o combate acirrado aos maus pensamentos que ainda povoam a nossa mente, visto que o pensamento é a fonte geradora de todas as ações, mesmo daquelas aparentemente intempestivas.
E ainda Kardec que nos esclarece que “ a vontade é o pensamento tornado força motriz. ” (6). Façamos, pois do nosso pensamento não uma arma destruidora, mas uma ferramenta construtiva.
(1) Obras Póstumas – Credo Espírita
(2) Dados publicados pela ONU
(3) Idem
(4) O Livro dos Espíritos – questão 784
(5) Obras Póstumas - Credo Espírita
(6) Revista Espírita – 1867
(Extraido do jornal Macaé Espírita – Jan./fev./mar, de 2005 – Ano LXIX - n°316)
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