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CALMA... NÃO SEJA PRECIPITADO!

Silvio Carlos  

Havia um velho muito pobre numa vila, mas mesmo os reis tinham inveja dele, porque ele possuía um belíssimo cavalo branco. Um cavalo como esse jamais havia sido visto antes - tal a beleza, a grandiosidade, a força. Os reis queriam o cavalo e ofereceriam preços fabulosos, mas o velho dizia: "Este cavalo, para mim, não é um cavalo, é uma pessoa, e como posso vender uma pessoa? Ele é um amigo, não é uma propriedade. Como posso vender um amigo? Não, não é possível". O homem era pobre, a tentação era grande, mas ele nunca vendia o cavalo.
            Certa manhã, ele verificou de repente que o cavalo não estava no estábulo. Toda a vila se reuniu e disse: "Seu velho tolo, nós já adivinhávamos que algum dia o cavalo seria roubado. E você é tão pobre! Como pôde proteger tal preciosidade? Teria sido melhor vendê-Io. Você poderia ter conseguido qualquer preço que pedisse, qualquer preço louco teria sido possível. Agora o cavalo se foi. É uma maldição, um azar".
O velho disse: "Não vão tão longe. Digam simplesmente que o cavalo não está no estábulo. Esse é o fato; todo o resto é julgamento. Se é ou não um azar, como podem saber? Como podem julgar?".
O povo contestou: "Não tente nos fazer de bobos. Podemos não ser grandes filósofos, mas nenhuma filosofia é necessária. É o simples fato de que um tesouro foi perdido e é um azar".
O velho disse: "Eu me prendo ao fato de que o estábulo está vazio e que o cavalo se foi. Todo o resto eu não sei - se é um azar ou uma bênção - porque isto é apenas um fragmento. Quem sabe o que vem depois?".
O povo riu. Eles pensaram que o velho tinha ficado louco. Sempre souberam que ele era um pouco doido; se não o fosse, teria vendido esse cavalo e vivido com fartura. Mas ele vivia como um lenhador, estava muito velho, ainda cortando lenha, trazendo madeira da floresta, vendendo-a. Vivia da mão para a boca, na miséria e na pobreza. Agora, estava mesmo comprovado que este homem era louco.
Depois de quinze dias, subitamente, numa noite o cavalo voltou. Ele não havia sido roubado, apenas havia fugido para a floresta. E não só havia voltado, como trazido com ele uma dúzia de cavalos selvagens. Novamente o povo se reuniu e disse: "Velho, você estava certo e nós errados. Não foi um azar. Ficou provado ter sido uma bênção. Pedimos desculpas pela nossa insistência".
O velho respondeu: "Mais uma vez vocês estão indo longe demais. Digam apenas que o cavalo voltou e digam que doze cavalos vieram com ele - mas não julguem. Quem sabe se isto é uma bênção ou não? Trata-se apenas de um fragmento. A menos que vocês saibam toda a história. Como podem julgar? Vocês lêem uma página de um livro, como podem julgar o livro todo? Vocês lêem uma frase numa página - como podem julgar a página inteira? Vocês lêem uma única palavra em uma frase - como podem julgar a frase toda? E mesmo uma só palavra não é tudo - a vida é tão vasta. Um fragmento de uma palavra e vocês julgaram o todo! Não digam que isto é uma bênção, ninguém sabe. E estou feliz no meu não julgamento. Não me perturbem".
Desta vez o povo não pôde falar muito; talvez o homem estivesse certo outra vez. Por isso ficaram quietos, mas, no fundo, sabiam muito bem que ele estava errado. Doze lindos cavalos selvagens tinham vindo com o cavalo branco. Com um pouco de adestramento, poderiam ser todos vendidos e renderiam muito dinheiro.
O velho tinha um filho jovem, um único filho. O jovem começou a adestrar os cavalos selvagens. Uma semana depois, ele caiu de um dos cavalos selvagens e quebrou as pernas. O povo se reuniu de novo - povo é povo em todo lugar, assim como você é você onde estiver - e julgaram outra vez. O julgamento vem tão depressa! E disseram: "Você estava certo, novamente provou que estava certo. Não era uma bênção, era outra vez uma maldição. Seu único filho perdeu as pernas e, na sua velhice, ele era seu único apoio. Agora você está mais pobre do que nunca".
O velho disse: "Vocês estão obcecados pelo julgamento. Não vão tão longe. Digam apenas que meu filho quebrou as pernas. Quem sabe se é uma maldição ou uma bênção? Ninguém sabe. Novamente um fragmento e nada mais Ihes é dado. A vida vem em fragmentos, e o julgamento é sobre o total."
Aconteceu que depois de algumas semanas, o país entrou em guerra com um país vizinho, e todos os jovens da vila foram forçados a se engajar no exército. Apenas o filho do velho foi dispensado, porque estava aleijado. O povo se reuniu, gritando e chorando, porque de todas as casas os jovens foram tirados à força. E não havia possibilidade de eles voltarem, pois o país que havia atacado era um país grande e a luta era perdida. Eles não iriam voltar.
Toda a vila estava gritando e chorando. Vieram até o velho e disseram: "Você estava certo, velho! Deus sabe, você estava certo - isto provou ser uma bênção. Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos se foram para sempre. Pelo menos ele está vivo e com você, e aos poucos ele vai começar a andar. Talvez ainda fique um pouco manco, mas estará bem".
O velho disse outra vez: "É impossível falar com vocês, pois continuam sempre e sempre julgando. Ninguém sabe! Digam apenas isto: que seus filhos foram obrigados a entrar no exército, no serviço militar, e meu filho não foi obrigado. Mas ninguém sabe se é uma bênção ou um azar. Ninguém jamais será capaz de saber. Só Deus sabe".
Analisar os fatos à nossa volta com os olhos do não-julgamento é uma atitude de sabedoria frente à vida, e certamente nos proporcionaria um estado de absoluta harmonia se assim agíssemos com mais freqüência.
Infelizmente, porém, estamos condicionados a fazer leituras e interpretações de fragmentos, apenas fragmentos, precipitando-nos em julgamentos equivocados.
Uma pessoa começa a nos contar algo e logo a interrompemos adiantando o final ou apresentando uma solução para o suposto problema. Sequer ouvimos o que o outro tem para falar e já nos precipitamos em avaliações e julgamentos, deixando clara a nossa dificuldade de saber ouvir.
Com muita propriedade, a narrativa acima ilustra-nos que a leitura da página de um livro não nos autoriza dizer se ele é bom ou ruim; a leitura de uma palavra não nos possibilita conhecer a frase inteira. Da mesma forma, avaliar um fato sem levar em conta o contexto em que está inserido, significa tornar deficiente a nossa capacidade de análise.
O Juiz de Direito, por exemplo, ao solucionar um conflito de interesses que lhe é apresentado em juízo, proporciona às partes durante o processo judicial o exercício do chamado contraditório, princípio segundo o qual as alegações deduzidas por uma parte devem chegar ao conhecimento da outra, com vistas ao exercício da ampla defesa. Somente ao final, depois da análise de todas as alegações e alicerçado nas provas apresentadas, ele profere o julgamento.
Saliente-se, por sua vez, que o Juiz de Direito age por dever de ofício, não podendo escusar-se de julgar o caso concreto, ao passo que somos apenas convidados a uma análise mais ampla dos fatos, com o objetivo de fazermos um juízo de valor dotado de maior lucidez, tendo a faculdade de proferir ou não um julgamento.
Recentemente, um amigo, médium, relatou-me que uma senhora de meia-idade o procurou reclamando de uma forte dor de cabeça. Ela já havia procurado várias Casas Espíritas, que diagnosticaram o problema como sendo uma terrível obsessão. Todavia, após analisar "desapaixonadamente" todos os fatos que envolviam o problema, ele sugeriu que ela procurasse um neurologista. Após os exames, ela foi imediatamente submetida a uma intervenção cirúrgica, tendo em vista que o seu quadro clínico já era bastante grave, podendo ser fatal a demora da cirurgia. O problema não era e nunca foi obsessão, mas sim, um grave problema neurológico.
Não diferente, relatou-me uma amiga que o seu início no Espiritismo se deu de forma, no mínimo, interessante. Na primeira vez em que assistiu a uma palestra, foi convidada a tomar passe ao final da reunião. Colocou-se em espera à porta de entrada do local onde se aplicavam os passes, aguardando a sua vez, quando, no momento em que entrou na sala, a "piranha" (presilha que prendia o seu o cabelo) soltou-se e começou a machucar o seu couro cabeludo. Durante o momento em que recebeu o passe foi um desconforto enorme, pois ela mexia a cabeça com vistas a diminuir o desconforto da dor. Ao final da aplicação do passe, o médium pediu a ela para freqüentar a reunião de desobsessão, pois havia um "espírito" ligado a ela durante a aplicação do passe, que a fazia movimentar a cabeça para desconcentrá-Ia. O famigerado espírito obsessor era, na verdade, a "presilha" do cabelo.
Estes relatos são apenas alguns pequenos exemplos das nossas interpretações equivocadas, praticadas também nos atendimentos feitos nas Casas Espíritas, onde tomamos um fato pelo contexto, muitas vezes de forma irresponsável, colocando em risco a vida daqueles que buscam o socorro espírita.
Por essa razão, convém o exercício da análise e do questionamento diante dos fatos que nos são apresentados, para os quais devemos evitar o julgamento precipitado.

Também diante dos conflitos que nos marcam a existência, a prudência recomenda a análise do contexto no qual estamos inseridos, no qual devemos avaliar os nossos atos e atitudes, as crenças que alimentamos, a nossa postura comportamental, tudo com o propósito de enxergarmos de forma mais ampla os recados inarticulados que a Vida Maior nos apresenta, reconhecendo que todos os caminhos nos levam sempre a um único destino: a felicidade.

Fonte: Revista Literária Espírita Delfos. Ano VI - Edição 01 - Nº. 22. Catanduva, SP: Boa Nova, p. 26 a 29

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