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Para não dizer que não falei de flores...e da paz
Sonia Theodoro da Silva
Encontro promovido pela ONU, em agosto de 2001, reafirma que ação individual tem reflexos coletivos.
"Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força...O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano ." (I Ching)
Hoje algo mudou. Hoje, olhamos para o espaço e buscamos o céu azul e límpido, num anseio natural por aquilo que ele, o céu, pode transmitir.
Descemos o olhar e buscamos as plantas. Sorrimos para o animal e para a criança, entendendo o momento em que estagiam. Excursionamos o pensamento nas coisas próximas e distantes que materializamos em ação, com o nosso infinito poder de co-criar. Olhamos para o outro, o nosso próximo (ainda uma incógnita), com menos receio e desconfiança, pois sabemos que, se sorrirmos, ele também será capaz de sorrir; contudo, se o sorriso vier acompanhado de bons sentimentos, será estabelecido, de forma imediata, um diálogo mudo, mas repleto de energias positivas que nos alimentará a alma de forma incessante; se houver um abraço, um toque de mãos, selaremos na matéria o que o Espírito iniciou - a capacidade de concretizar em ato, o que ele, o Espírito, cria em sentimentos. Se o outro sofrer, sofreremos juntos; se ele vier a chorar, seremos capazes de mesclar as nossas lágrimas.
Não obstante, tudo isto não basta, pois a Solidariedade, é apenas o primeiro passo para o exercício da Fraternidade. Esta sim é complexa, pois vê no outro o seu igual.
Prestemos atenção na Natureza; ela conversa conosco, num diálogo contínuo de Amor e Paz. Nas tempestades e nas manifestações telúricas dos vulcões, terremotos e maremotos, vemos a ação disciplinadora e saneadora do Plano Divino da Criação; no entanto, aos nossos olhos são calamidades. Nos animais, o instinto de sobrevivência os impele a saciar a fome premente e a perpetuar a espécie. A nosso ver, são agressões e violências. A severidade das manifestações naturais escapa-nos a compreensão, parecendo-nos incompatíveis com o equilíbrio e a razão. Porém, em tudo isto há harmonia. Espécies que se sucedem nas experiências vitais, a própria Terra se manifesta, estuante de Vida, nas estações, onde periodicamente a Natureza ora adormece, ora desperta, plena de vitalidade e beleza, num movimento incessante de renovação.
E o ser humano? Ah, o ser humano... Este criado à imagem e semelhança de Deus, seu Criador, por meio do maior representante desta Paternidade em nosso meio, descobriu que era partícipe da divindade, pois ele revelou-nos: "Sois deuses".
Dotado do maior potencial que jamais outro será capaz; realizado nas instâncias evolutivas, pode refletir em si mesmo as luzes com as quais foi feito; embora partícipe da Criação, no entanto, ainda traz em si o lado vazio e obscurecido do mal ainda não transformado em Bem - este o drama da sua dualidade moral. Preso a esse vazio existencial, luta consigo mesmo, expressando na relação com o outro o seu inconformismo e a sua inadaptação. Conclamado às instâncias superiores da existência, ainda estagia na dialética do ódio e da agressividade primárias. Contudo, rasga-se a carne, permanece o Espírito; agride-se o corpo, permanece a essência. Nada se destrói, tudo se transforma. Vão-se as construções materiais, fica o espírito necessitado, perambulando por entre os escombros, gritando a sua dor e a ignorância da própria realidade.
Hoje, porém, algo mudou. Embora a Natureza continue o seu ciclo dialético, o Homem se renovou, pois foi capaz de parar e refletir. Refletir em sua imensa capacidade de ser bom, mas também no quanto a sua ignorância do Bem o leva a cometer desatinos, em nome de algo que simbolize o seu apego à transitoriedade. Violência e agressão são formas de manifestação da imensa ausência de paz interior. E sabedores disto, os representantes do Encontro de Líderes Religiosos e Espirituais pela Paz Mundial, promovido pela ONU, em Nova York, em agosto de 2001, reproduziram no Compromisso com a Paz Global, que nenhum indivíduo, grupo ou nação pode viver no nosso mundo em um microcosmo isolado, independente, mas que, ao contrário, todos devem compreender que cada ação nossa tem impacto sobre os outros e na emergente comunidade global.
Isto é o reconhecimento patente que deixamos de viver apenas para a nossa parentela consangüínea, transitória, para transcender, abrangendo, no tempo e no espaço, a todos os que permutam a parentela espiritual. Ao reconhecer como irmãos a todos os quais falava, ao perdoar, na cruz de suas imensas dores, os nossos destinos, ao voltar da aflição e da morte, Jesus provou veementemente, a nossa verdadeira realidade. Não mais circunscrita em aldeia, mas aberta, nas grandes metrópoles, bem como nas vilas distantes, nos lugarejos e nas megalópoles: somos irmãos - esta é a grande realidade. E se o ódio nos destrói e amarga por dentro, o Amor será como um lenitivo balsamizando feridas, abertas pela nossa imensa carência espiritual, na pele e no coração daqueles que, equivocadamente, continuamos a chamar de nosso inimigo.
São de Herculano Pires as palavras: "Só podemos atingir o Reino (de Deus) através de nós mesmos. Porque nós somos o Mundo, nós somos a Humanidade. Quando olhamos para o nosso íntimo e vemos as nossas imperfeições, as nossas deficiências, o nosso apego às coisas mundanas, compreendemos que o mundo tenha que ser como é, que o regime do homem lobo do homem tenha de prevalecer na Terra. Mas se formos capazes de compreender que devemos nos melhorar para que o mundo melhore, que devemos mudar o nosso regime de vida para que o regime social mude, então estaremos lutando pelo Reino. "
Bibliografia:
1. Compromisso com a Paz Global, subscrito por todos os representantes religiosos mundiais, presentes na ONU, dentre os quais o tribuno espírita Divaldo Pereira Franco;
2. O Reino (Irmão Saulo);
3. O Evangelho Segundo o Espiritismo (Allan Kardec)
4. The Turning Point (F. Capra)
(Texto publicado na Revista Internacional do Espiritismo. Rio de Janeiro, RJ. Janeiro de 2002 - p.600-601)
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