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E ONDE ESTÃO OS NOVE ?

Edilton Costa Silva  

Dizem que tomaram rumos desconhecidos, perigosos, percorrendo um longo caminho de sofrimento desde o momento “mágico” cujo significado preferiram desconsiderar. Os corpos limpos não conseguiram dissimular as manchas que carregavam nas almas vazias de sentimentos nobres.

Um deles, o primeiro, depois de muito tempo alimentando-se, escassamente, das sobras que lhe chegavam, vendo-se curado, resolveu que trabalharia com todo empenho para que sua mesa fosse sempre farta e o estômago sempre pleno, escolhendo este como templo, com o qual deveria ocupar a melhor e a maior parte do seu tempo. Achava que não devia agradecer pela saúde recuperada.

O segundo, cansado de perambular em busca das migalhas deixadas pela sociedade, que ele considerava preconceituosa e indiferente ao seu sofrimento e à sua sorte, concluiu que agora tinha o direito de relaxar, descansar e usufruir de tudo que lhe fora proibido antes da cura. A doença que o segregara condicionara-o também a uma ‘lei do menor esforço’ a ser usufruída após a recuperação, como se a indolência merecesse prêmio e a sociedade lhe devesse alguma coisa. Também este não percebeu o valor transcendental daquela oportunidade e não soube agradecer.

Dominado pelo ódio que impregnava todo o seu ser, o terceiro tinha o raciocínio obnubilado. Não conseguia entender por que adoecera e odiava a tudo e a todos para os quais transferia a responsabilidade do seu sofrimento. Inevitavelmente, junto com o ódio vinha o desejo de vingança e, nem mesmo a visita do Amor, propiciando-lhe um corpo limpo, logrou atravessar a barreira da ira que impermeabilizava aquele coração rebelde. Mantinha-se na monoidéia do ódio e da vingança e era impossível passar em sua mente o mais leve sentido de gratidão.

O quarto portava na ‘carne da alma’ um espinho que tentava ignorar. Ninguém que o possua é capaz de relatar clara e nitidamente os seus sintomas. É um mal secreto. Seu portador chora mais o bem alheio do que o próprio dano. Ele tinha inveja daqueles que pareciam felizes, sadios, sem problemas. Ele desejava também parecer feliz e sadio. Apenas parecer. Ele esqueceu que ‘a emulação é a paixão das almas nobres, enquanto a inveja é o suplício das almas vis’, e por isso o invejoso não agradece, exige. Exige que os outros lhe engrandeçam, admirem e reconheçam os seus pretensos valores.

Banido do convívio social, o quinto levou consigo tudo quanto foi possível do que havia acumulado durante toda a vida. Nada repartiu com os parentes ou ‘amigos’ e não imaginava que um ‘milagre’ poderia acontecer, considerando a gravidade e a irreversibilidade daquela ‘doença maldita’. Ao receber a visita do ‘anjo da saúde’ e perceber-se totalmente curado, verificou que a maior parte da sua fortuna havia sido furtada ou destruída e lamentou profundamente não ter tido a recuperação da saúde mais cedo, a fim de ter mais tempo para reacumular e ampliar os seus bens. Não havia tempo físico nem espaço mental para qualquer manifestação de agradecimento naquele que tinha a vida dominada pela avareza.

O sexto, ingrato como os outros, perdeu-se pelos caminhos dos prazeres imediatos e insaciáveis da sexolatria, afogando-se na luxúria. Sua mente viciada não lhe deixou perceber que adoecera e, igualmente, não se dera conta da ação da misericórdia divina naquele instante especial que ensejava a sua cura física. Demorava-se nos prazeres sensuais numa tentativa frustrada de burlar os códigos divinos para eternizar os abusos em que se comprazia. Não tinha qualquer sentimento de gratidão.

A gula quer engordar, o ódio espumar, a preguiça se derramar, a avareza acumular, a luxúria se oferecer, a inveja se esconder e ... e o orgulho? O orgulho quer brilhar, de preferência sozinho. E pobre daquele que, carregando consigo esta marca infeliz, acredita ser auto-suficiente em tudo. Este, com a visão limitada pelo amor - próprio em excesso, pensa que só deve agradecer a si mesmo pelos êxitos alcançados.

O oitavo e o nono voltaram, muitas vezes, à experiência física sem padecer qualquer enfermidade estigmatizante, todavia encontraram extremas dificuldades para se livrarem dos bacilos do torpe desânimo e da cruel maledicência que os mantinham distante, muito distante daquele que é o grande libertador de consciências. Também estes não aprenderam o significado da gratidão...

Por que é tão difícil agradecer?

Alguns responderiam que a gratidão é qualidade dos espíritos nobres, e poderíamos completar observando que a nobreza espiritual não costuma ser incentivada na sociedade moderna. Ao contrário, o que se nota até mesmo em relação à infância é o estímulo à competição, ao sucesso fácil e rápido, à projeção pessoal, à conquista da fama, do poder e do vil metal. É raro a mídia veicular programas educativos que conduzam o ser aos elevados valores da aristocracia espiritual. As chagas morais obliteram a percepção da luz. Estão para o espírito humano como as nuvens que nos impedem visualizar o brilho do ‘irmão sol’. Felizmente como estas, aquelas cedo ou tarde também se dissipam para que a criatura possa ter a visão clara do Criador.

O que agradeceu era considerado estrangeiro, de uma raça impura. Era Samaritano. Sempre os Samaritanos, parecendo menores diante dos homens como a ensinar-lhes a serem grandes para Deus.

“Ide e mostrai-vos aos Sacerdotes”, disse o Mestre. E, ao perceberem- se limpos das chagas físicas, não se preocuparam com as impurezas que os distanciavam daquele que anunciou o Reino de Deus para os que tinham coração imaculado.

As lições relativas ao binômio gratidão — ingratidão jamais serão esquecidas enquanto ecoarem nos ouvidos da Humanidade os sons daquelas palavras profundas e emblemáticas:

E onde estão os nove?

Nota do autor: A composição deste artigo foi inspirada no Novo Testamento, Evangelho de Lucas, cap. 17: 11 a 19

(Extraído da revista Presença Espírita. Órgão de divulgação do Centro Espírita Caminho da Redenção. Salvador, BA. Março - abril de 2003. Nº 235. p. 7-9)

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