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O Jugo Leve

D. Villela   

A palavra jugo significa submissão, domínio, opressão. Os judeus, na época de Jesus, estavam sob o jugo romano. O Mestre, no entanto, convidou-nos a aceitar o seu jugo, acrescentando que ele era suave (Mateus, 11:28 a 30), o que, à primeira vista, parece uma contradição, tanto mais se lembrarmos que as diretrizes religiosas conclamando ao cumprimento dos deveres, ao equilíbrio e à renúncia, sempre foram consideradas austeras, difíceis de serem seguidas.

Na verdade, tornou-se comum - já há muito tempo - uma posição de compromisso: a freqüência ao templo, a oferta de donativos e a postura convencionalmente correta bastariam para caracterizar o bom religioso. Deslizes socialmente aceitos não comprometeriam a conduta do crente, que poderia, apesar deles, considerar-se em dia com seus compromissos espirituais.

Jesus conhecia perfeitamente as nossas dificuldades, afirmando, inclusive, que não viera chamar os justos, isto é, aqueles já identificados com o bem, mas os pecadores, ou seja, a imensa maioria dominada, ainda, pelo egoísmo e pela ilusão (Mateus, 9:12 e 13). Ele sabia, em conseqüência, que os frutos de seu trabalho não surgiriam de imediato.

Essa compreensão da natureza humana caracterizava também os primeiros seguidores da Boa Nova, que não aguardavam ou exigiam demonstrações de grandeza espiritual de ninguém, devendo o cristão identificar-se por seu sincero e perseverante esforço de melhoria. Aliás, lendo-se os textos evangélicos, particularmente as cartas que Paulo dirigiu às diversas comunidades por ele fundadas, vê-se que estas se compunham de pessoas ainda falíveis, pois em suas missivas o apóstolo trata de desentendimentos, dúvidas, quedas... Percebe-se, contudo, que existia naqueles agrupamentos uma disposição autêntica para a vivência do Evangelho e por isso recorriam ao grande trabalhador rogando esclarecimento e orientação.

Com o tempo, infelizmente, aquela atitude sensata e objetiva foi esquecida, adotando o Cristianismo uma visão dualista segundo a qual apenas os indivíduos excepcionalmente bons estariam bem espiritualmente, achando-se os demais em falência moral, sob ameaça do inferno após a morte. Diversos fatores contribuíram para esta mudança, entre elas a pregação centrada no pecado e não na promoção do bem, o retorno à concepção antiga de um Deus vingativo, e não o Pai mencionado por Jesus, e a perda do contato com o mundo espiritual, através da mediunidade, banida dos ambientes cristãos.

A Doutrina Espírita nos permite entender o convite do Mestre, tanto em seu significado quanto em sua aplicação, lembrando que a submissão ao egoísmo é caracterizada por conflitos, apego e ansiedade que, realmente, representam pesado fardo a dificultar a nossa marcha, que se faz penosa e cheia de sobressaltos. O jugo de Jesus é suave por nos libertar desses prejuízos, conduzindo-nos, progressivamente, à vivência do amor e da caridade.

O Espiritismo retoma, assim, a tradição cristã original, pois reconhece as nossas deficiências e nos recomenda corrigi-las, propondo a ação no bem como valioso recurso para essa realização.
Foi por isso que Allan Kardec afirmou: "Conhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas más tendências".

(SEI - Serviço de Informação Espírita. Rio de Janeiro, RJ. 04 de Agosto de 2001.)

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