Relembrando Allan Kardec

FORMAÇÃO  DE  GRUPOS   (1)
(Resposta de Allan Kardec durante o banquete que lhe foi oferecido pelos Espírita de Lyon)

A rapidez com que a Doutrina propagou-se nos últimos tempos, apesar da oposição que ainda encontra, ou, talvez, por isso mesmo, pode fazer prever-lhe o futuro. Por uma questão de prudência, evitemos tudo quanto possa produzir uma impressão desagradável e — não digo perder uma causa já assegurada — retardar-lhe o desenvolvimento. Sigamos nisto os conselhos dos sábios Espíritos e não esqueçamos que, neste mundo, muitos sucessos foram comprometidos por excessiva precipitação. Também não nos esqueçamos de que nossos inimigos do outro mundo, assim como os deste, podem procurar arrastar-nos por um caminho perigoso.

Houvestes por bem me pedir alguns conselhos e para mim é um prazer vos dar aqueles que a experiência poderá sugerir-me. Não será mais que uma opinião pessoal, que vos convido a ponderar com a vossa sabedoria e da qual fareis o uso que vos parecer conveniente, pois não tenho a pretensão de me impor como árbitro absoluto.

Tínheis a intenção de formar uma grande sociedade. A respeito já vos disse a minha maneira de pensar, de sorte que me limito a resumi-la aqui.

Sabe-se que as melhores comunicações são obtidas em reuniões pouco numerosas, (2) sobretudo naquelas em que reinam harmonia e comunhão de sentimentos. Ora, quanto maior for o número, mais difícil será a obtenção dessa homogeneidade. Como é impossível que no começo de uma ciência, ainda tão nova, não surjam algumas divergências na maneira de apreciar certas coisas, dessa divergência infalivelmente nasceria um mal-estar, que poderá levar à desunião. Ao contrário, os pequenos grupos serão sempre mais homogêneos; as pessoas se conhecem melhor, estão mais em família e podem ser mais bem admitidas as que desejamos. E, como em última análise, todos tendem para um mesmo objetivo, podem entender-se perfeitamente e haverão de entender-se tanto melhor quanto não haja aquele melindre incessante, que é incompatível com o recolhimento e a concentração de espírito. Os maus Espíritos, que buscam incessantemente semear a discórdia, ferindo suscetibilidades, terão sempre menos domínio num pequeno grupo do que num meio numeroso e heterogêneo.

Numa palavra, a unidade de vistas e de sentimento nele será mais fácil de estabelecer.

A multiplicidade dos grupos tem outra vantagem: a de obter uma variedade muito maior de comunicações, pela diversidade de aptidão dos médiuns. Que essas reuniões parciais comuniquem reciprocamente o que elas obtêm, cada urna por seu lado, de modo que todas aproveitem os seus mútuos trabalhos. Aliás, chegará o momento em que o número de aderentes não permitiria mais uma reunião única, que deveria fracionar-se pela força das coisas. Eis por que preferível é fazer imediatamente aquilo que serão obrigados a fazer mais tarde.

Incontestavelmente, do ponto de vista da propaganda, não é nas grandes reuniões que os neófitos podem colher elementos de convicção, mas na intimidade. Há, pois, um duplo motivo para preferir os pequenos grupos, que podem multiplicar-se ao infinito. Ora, vinte grupos de dez pessoas, por exemplo, indiscutivelmente obterão mais e farão mais prosélitos que uma reunião única de duzentas pessoas.

   

(1)Título nosso
(2) - Nota do tradutor: Ver O Livro dos Médiuns. Segunda parte, capítulo XXIX, especialmente o item 332.
ALLAN KARDEC. Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro. RJ: FEB. 2005. p.159 -161. Ver também: Revista Espírita, outubro de 1860, FEB, p. 442-452   

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