Relembrando Allan Kardec

No Dia 18 de abril de 1857

Extraímos algumas notas das admiráveis páginas que, sobre Allan Kardec, escreveu Canuto Abreu, na obra O LIVRO DOS ESPÍRITOS E SUA TRADIÇÃO HISTÓRICA E LENDÁRIA, narrando os acontecimentos do dia 18 de abril de 1857, um sábado de primavera.

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MANHÃ

Rue Montpensier, em frente à Galeria de Orléans nº 13, no Palais Royal, Paris. Local onde se situava a Livraria E. DENTU. Um portador transportou para o interior da loja vários pacotes envoltos em papel grosso e tendo, numa das faces, uma etiqueta branca com o frontispício impresso de um livro. O bilhete da entrega apontava o total de mil e duzentos volumes. Após a abertura de um dos pacotes, um dos exemplares de capa cor de cinza mostrava o título da obra recém recebida: O LIVRO DOS ESPÍRITOS. A senhora DENTU, após apreciar o volume que lhe foi entregue, decepcionou-se com o trabalho gráfico( 1), passando-o às mãos do filho que a ele se referiu como sendo "o trabalho mais sério até hoje publicado, na França, sobre os Espíritos." Providenciaram, então, a remessa de um pacote para a residência de Allan Kardec, e outros para DIDIER - editor - e LEDOYEN - livreiro.(2)

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TARDE

ALLAN KARDEC chegou à Livraria E.DENTU, sendo recebido efusivamente pelo gerente CLÉMENT, que lhe informou já terem sido vendidos mais de cinqüenta volumes, além dos que foram por ele presenteados. No interior da livraria, o professor RIVAIL foi cumprimentado por quantos se encontravam no local, em particular por um empregado que, dotado de mediunidade, percebeu, junto de RIVAIL um grupo de Espíritos, vestidos à moda da época, mas de tecido claro e brilhante, que lhe acenaram com um "até breve". Na Praça do Teatro Francês, após ter deixado a Livraria, RIVAIL dirigiu-se à MESSAGERIE ROYALE a fim de certificar-se da entrega dos volumes aos destinatários por ele recomendados.

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NOITE

Na RUE DES MARTYRS Nº 8 (2º andar - fundos), realizou-se, à noite, a recepção preparada pelo casal RIVAIL. O pequeno apartamento comportava, a rigor, vinte pessoas e, por isso, limitara-se o número de convidados. Compareceram: a família BAUDIN com suas filhas Caroline e Julie, dedicando KARDEC grande carinho e atenção à jovem de dezoito anos - Caroline Baudin , a quem O LIVROS DOS ESPÍRITOS devia tanto; a senhora DE PLAINEMAISON; a família DUFAUX, com sua filha Ermance; o viúvo JAPHET e sua filha Ruth Celine (3); o casal ROUSTAN; o professor CANU; o livreiro CLÉMENT; o capitalista LECLERC; senhor ROGER; o negociante CARLÓTTI e sua filha Aline. MADAME RIVAIL ( Amélie-Gabrielle de Lacombe Boudet Rivail ) - Gaby, a todos recebia com doçura, carinho e atenção. KARDEC, dirigindo-se aos presentes, explicou os motivos da reunião: "Gabi e eu, neste dia em que vem a lume O LIVROS DOS ESPÍRITOS, queremos testemunhar nosso reconhecimento aos que, duma e doutra maneira, concorreram para a formação e lançamento dessa obra. Em primeiro lugar, cito as prezadas famílias Baudin, Roustan e Japhet. Elas proporcionaram-me, com extrema gentileza, os ambientes indispensáveis ao recebimento dos ensinos ora compendiados. Destaco, nessas queridas famílias, um agradecimento particular às meninas Caroline, Julie e Ruth Celine. Pondo de lado os prazeres próprios da mocidade e sacrificando horas de estudo, elas se prestaram, durante mais de um ano, ao fatigante uso de seus dotes mediúnicos, cumprindo sua nobre missão de intermediárias dos Espíritos. Devo à mediunidade de Caroline e Julie Baudin a essência dos ensinos espírita contidos na obra e, à mediunidade de Ruth Celine Japhet, os esclarecimentos complementares que me permitiram aceitar alguns pontos revessos à primeira inspeção. Só depois de ultimada a obra e aprovada todas as lições pelos Espíritos que as ditaram e ratificaram numa e noutra casa de trabalhos, e, por sugestão dos Guias, é que me vali do auxílio de mais de dez médiuns, estranhos, alguns, aos dois referidos centros.(...)" Allan Kardec congregou os presentes, em espírito, para um preito de gratidão à Providência que concedeu a todos a felicidade de laborar em Seu plano de Amor à Humanidade. A noite ia avançando, quando Ermance Dufaux , médium, dirigiu, em voz clara e pausada, sublime mensagem de Luiz de França, da qual registramos alguns trechos:

• Onde impera a mão divina não age a do acaso, e a Providência se manifesta pelos acontecimentos.
• Nos acontecimentos diários é indispensável não se olvidar das leis que os regem: a do Livre Arbítrio e a do Progresso.
• Pedindo e obtendo da Vida Invisível certa experiência carnal, o homem voluntariamente recua, na hora da prova, por medo ou fraqueza de vontade. Não há crime no recuo. Há, porém, atraso no progresso espiritual. O recuo jamais constitui surpresa para a Providência Divina e o conhecimento dele vem pela cadeia espiritual, segundo uma disciplina hierárquica, até o Guia do homem que vai falir. A força moral de cada criatura é, cientificamente, conhecida de seu Guia. E é, justamente com recuos e avanços dos homens, sob a vigilância dos Guias, que se opera a complicadíssima rede dos desígnios de Deus, rede que, pelo mar da vida, arrasta os homens para o seu destino, que é o aperfeiçoamento da almas.
• É imperioso à divulgação da Filosofia dos Espíritos, ora delineada em O LIVRO DOS ESPÍRITOS, que vocês "morram" como "homens velhos" e se "reencarnem" como "homens novos", nesta mesma existência. Os apóstolos do Espiritismo devem renascer mental e moralmente. Só assim renascidos podem intitular-se espíritas.
• Ao Apostolado Espírita não bastam a elaboração e o lançamento da Filosofia Espírita. É-lhe necessário, para não falir na missão, praticar essa filosofia, predicando os seus ensinos não só por palavras, mas sobretudo por exemplos. Esse apostolado não será uma batalha de flores e, sim, de espinhos. Apresentar A VERDADE através de um livro é uma coisa; defendê-la, em campo de luta, é outra.
• Mas, na luta, empreguemos somente as armas nobres dos Cavalheiros d´ A VERDADE: a humildade, a prudência, a tolerância, a persistência.
• Aquele dentre vocês que mais vivo tornar o Espiritismo entre os homens, esse será o verdadeiro missionário d´A VERDADE na Terra.

Saudamos , desta forma, os 145 anos de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, marco fundamental do advento do Espiritismo, substância filosófica, científica e religiosa da amorosa promessa de Jesus.

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1. A obra levou quatro meses para ser impressa, na Tipografia DE BEAU.
2. Em 1860, publicaram a segunda edição de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, inteiramente refundida e aumentada por Allan Kardec. A primeira edição tinha 501 perguntas. A segunda, 1019, com o subtítulo filosofia espiritualista.
3. Foi a 30 de abril de 1856, à rua Tiquetonne, em casa do sr. Roustan, pela médium sonâmbula, senhorita Japhet, que Allan Kardec recebeu a primeira revelação da missão que tinha a desempenhar.

LEITURAS RECOMENDADAS

1. ABREU, Canuto. O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária. São Paulo, SP: Lar da Família Universal, 1992
2. AUDI, Edson. Vida e Obra de Allan Kardec. 1.ed. Niterói, RJ: Publicações Lachâtre Ed., 1999
3. IMBASSAHY, Carlos. A Missão de Allan Kardec. 2.ed. Curitiba, PR: Federação Espírita do Paraná, 1988
4. WANTUIL, Zêus e Thiesen, Francisco. Allan Kardec. Vol I, II e III. Rio de Janeiro, RJ: FEB 5. Presença Espírita. Salvador, BA: LEAL. Março / Abril de 2002. Nº 229


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