Relembrando Allan Kardec

A Divulgação do Espiritismo

Se nada pode parar a marcha do Espiritismo, há circunstâncias que podem determinar entraves parciais, como uma pequena barragem pode decelerar o curso de um rio, sem o impedir de correr. Deste número são os movimentos inconsiderados de certos adeptos mais zelosos que prudentes, que não calculam bem o alcance de seus atos ou de suas palavras. (...) Nunca seria demais recomendar aos espíritas refletir maduramente antes de agir.

Em tais casos manda a prudência não se bastar à opinião pessoal.

Hoje, que de todos os lados se formam grupos ou sociedades, nada mais simples que se reunir antes de agir. Não tendo em vista senão o bem da causa, o verdadeiro espírita sabe fazer abnegação do amor próprio. Crer em sua infalibilidade, recusar o conselho da maioria e persistir num caminho que se demonstra mau e comprometedor, não é do verdadeiro espírita. Seria dar prova de orgulho, se não de obsessão.

Entre as Inabilidades colocam-se em primeira linha as publicações intempestivas ou excêntricas, por serem fatos de maior repercussão.

Nenhum espírita ignora que os Espíritos estão longe de possuir a ciência suprema; muitos dentre eles sabem menos que certos homens e, como certos homens também, têm a pretensão de saber tudo. Sobre todas as coisas têm sua opinião pessoal, que pode estar certa ou errada. Ora, ainda com os homens, os que têm idéias mais falsas são os mais cabeçudos. Esses falsos sábios falam de tudo, armam sistemas, criam utopias ou ditam as coisas mais excêntricas e sentem-se felizes quando encontram intérpretes complacentes e crédulos que aceitam as suas elucubrações de olhos fechados.

Tais publicações têm inconvenientes muito graves, porque o próprio médium, enganado, seduzido muitas vezes por um nome apócrifo, as dá como coisas sérias e a crítica se apodera delas para denegrir o Espiritismo, ao passo que, com menos presunção, bastaria ter-se aconselhado com os colegas para ser esclarecido. É muito raro que, neste caso, o médium não ceda às injunções de um Espírito que, ainda como certos homens, quer ser publicado a qualquer preço. Com mais experiência ele saberia que os Espíritos verdadeiramente superiores aconselham, mas nem impõem nem adulam jamais e que toda prescrição imperiosa é um sinal suspeito.

Quando o Espiritismo estiver completamente assente e conhecido, as publicações desta natureza não terão mais inconvenientes que os maus tratados de ciência em nossos dias. Mas no começo - repetimo-lo - elas têm um lado muito prejudicial. Assim, em se tratando de publicidade, toda circunspeção é pouca e não se calcularia com bastante cuidado o efeito que talvez produzisse sobre o leitor.

Em resumo, é um grave erro crer-se obrigado a publicar tudo quanto dizem os Espíritos, porque, se os há bons e esclarecidos, também os há maus e ignorantes. Importa fazer uma escolha muito rigorosa de suas comunicações, afastar tudo quanto for inútil, insignificante, falso ou de natureza a produzir má impressão.

É necessário semear, sem dúvida, mas semear boa semente e em tempo oportuno

(*) Título nosso   

(Revista Espírita . São Paulo, SP: EDICEL. Março de 1863. p. 72-3)


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